Ciclos em conflito: quando a dor pélvica deixa de ser um incômodo comum e exige investigação

Consultas ginecologista e mastologista Dr Carolina Malhone
Quantas vezes você já ouviu — ou disse a si mesma — que sentir dor “faz parte de ser mulher”? Essa frase, repetida por gerações, é uma das armadilhas mais perigosas da saúde feminina. Ela silencia sinais que o corpo envia e transforma o sofrimento crônico em algo banal. Mas a verdade é que, embora o ciclo menstrual traga desconfortos naturais, existe uma linha muito clara, ainda que às vezes sutil, entre o incômodo esperado e o conflito patológico. Imagine o caso de uma paciente que atendi recentemente.

Vamos chamá-la de Julia. Julia passava três dias por mês à base de anti-inflamatórios potentes, cancelando reuniões e evitando sair de casa. Para ela, isso era apenas uma “cólica forte”. Foi só durante uma conversa mais profunda que percebemos que a dor dela não se limitava ao período menstrual; ela sentia um peso no baixo ventre ao carregar compras e um desconforto agudo durante a intimidade. O diagnóstico? Uma endometriose que já começava a envolver outros órgãos. O que Julia achava ser “seu normal” era, na verdade, um grito de socorro do organismo. A dor pélvica crônica é um quebra-cabeça.

Ela pode ser o sintoma de miomas uterinos — aqueles tumores benignos que, dependendo do tamanho e localização, distorcem a cavidade uterina e causam sangramentos exaustivos. Ou pode vir de cistos ovarianos e da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), onde o desequilíbrio hormonal gera uma cascata de eventos que afeta desde a pele até a fertilidade. Não podemos ignorar que a pelve e as mamas estão conectadas pelo mesmo “maestro”: o sistema endócrino. É muito comum que pacientes com queixas de dor pélvica também apresentem mastalgia (dor nas mamas) cíclica severa.

Quando os hormônios estão em desequilíbrio, o tecido mamário responde, ficando mais denso e sensível. Por isso, em uma consulta de rotina, o olhar precisa ser integrativo. Não faz sentido olhar para o útero e ignorar as mamas, ou vice-versa. A ginecologia e a mastologia caminham juntas na manutenção dessa harmonia. Mas como saber quando marcar aquela consulta extra? O sinal de alerta acende quando a dor interrompe sua vida. Se você precisa adaptar sua rotina por causa do desconforto, algo está errado. Além disso, alterações no fluxo, dor ao urinar ou evacuar durante o ciclo e aquela sensação de pressão constante na bacia exigem investigação imediata.